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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

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iria para lisboa. a mãe insistia que a serra não era lugar para ela. o gado, o tio que deus não fadou com juízo, a ausência de pai, a fome. era nova, bonita, pequena e roliça, corpo de mulher. os cabelos de oiro e o azul dos olhos iriam ajudá-la. iria para lisboa, sim! a mãe já assim o decidira. na capital sempre haveria de arranjar trabalho. as pessoas humildes não podem ousar que não servir. sozinha, numa cidade grande, vinha a calhar ter cama e comida no local de trabalho. uma hospedaria com alguma classe. era bonita e as mãos faziam a lida doméstica com certo esmero. aceitaram-na. teresa estava em lisboa. não foi a cidade que a encantou. não era dada a detalhes. gostava da conversa. dar à língua. teresa estava em lisboa para mudar o destino. não! teresa estava em lisboa porque a mãe queria mudar-lho. e o destino estava ali. a um passo. na mudança do século. 1900 aproximava-se a passos largos. e o mundo? que aconteceria ao mundo nessa mudança? reza, teresa! reza todas as noites, minha filha! e que deus nosso senhor de guie. foi assim que se despediram. e foi assim que teresa ficou em lisboa. na esperança de ser guiada por algum deus nosso senhor.

saudade da terra, não tinha. dos animais, um pouco. das cantorias pelos campos, sim. isso, sim! tagarelar era um dos seus prazeres. mesmo que não tivesse muito com quem. fazer camas de lavado, limpar e lavar, corar e brunir eram um dia a dia mais suave que o trabalho do campo. atarefado, sim, mas acolhido do tempo. na sua farda, corria os diferentes quartos e dava por encerrada a fascina num abrir e fechar de olhos. era despachada. todos os dias lhe sobrava um pouco de tempo para não fazer nada. e aproveitava-o, nada fazendo.


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8 comentários:

tufa tau disse...

re disse...
Muito, muito muito bonito.
Consigo ver a Teresa.

pn disse...

Bom começo para uma bela estória...

tulipa disse...

Histórias de vida...
um abraço
tulipa

isabel disse...

obrigada :)

maria josé quintela disse...

gosto deste teu falar.





beijo tufa.

um Ar de disse...

Estes teus contos, breves, são lindíssimos!...
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Em cada post vislumbra-se o livro. Inteiro!
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Feliz passagem, a minha.
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[Beijo...@]

Nilson Barcelli disse...

Situação muito frequente nessa época e até muitas décadas depois.
A tua narrativa é perfeita, gostei muito, mas a história poderia continuar...
Beijo.

PS:
AVISO URGENTE:
Tens um mimo no blogue da Pin Gente.
Se não fores lá depressa ela ainda me mata.
Lê tudo e vais perceber porquê.

pin gente disse...

eu, matar o nilson?
onde foi ele tirar essa ideia?
pacífica como eu só o atlântico, em dias de calmaria!

beijos


diz ao nilson que a história é para continuar.