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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

a sua vontade era deixar um aviso "não regresso". optou por marcar hora, deixando-o escrito a preto sobre o fundo branco do papel. partiu, sem destino marcado mas com vontade de ver o mar. fotografar a casa azul. agarrou o volante com gosto. sentiu-se deslizar estrada fora. fugiu das obrigações, da suposta hora de descanso em que tudo pode fazer, apenas porque está. fugiu de ter que estar. fugiu para estar só sem o sentir. para gastar o tempo da forma mais livre. sentiu-se fugitiva numa cidade que era a sua. nas ruas que percorria tantas vezes. não era um risco encontrar alguém conhecido, mas preferia que não acontecesse. ninguém sabia onde estava. ninguém a esperava. o sentido era esse mesmo, sentir-se a fazer o que queria, sem dar satisfação. porque o habitual era saberem sempre onde estava numa determinada hora. hoje só ela sabia. veria o mar... a foz, o rio. o dia estava claro e o sol brilhante. início de uma qualquer tarde de terça-feira de janeiro, desde que com muito sol. a casa continuava azul. guardou a imagem na película. um, dois, talvez três disparos. desejou ver o resultado na hora. teria que esperar. trinta! faltavam seis... era agradável conduzir num dia de semana. sem filas, sem mirones. a foz, sem parecer o campo, não lhe parece a cidade. deixa-a, rumo ao rio. os plátanos exibem o seu malhado entre os beiges, os cinzas e os esverdeados. desfolhados pelos ciclos da natureza e pela poda anual, pedem para ser fotografados. uma pequena gaivota equilibra-se numa varanda para o rio. não lhe entende a indecisão. será a fartura de tainhas, a falta de apetite, o prazer de sentir o sol... pois algo a impede de mergulhar. uma paragem. um lugar para estacionar. dois idosos põem a conversa em dia e observam a sua chegada. por momentos, calam-se e seguem-na com o olhar. talvez a curiosidade da máquina fotográfica! várias gaivotas aproveitam a vinda da maré e preocupam-se com a sua presença. atentas ao ser que delas se aproxima acercam-se da água, que as molha. abrem asas. afasta-se para que desistam de partir. só um pequeno gato ignora a sua chegada. apeteceu-lhe fotografar a sua calma. espreguiçado ao sol, deitado no banco de um mini barco. tinha atingido as trinta e seis. o sonolento felídeo não teve direito a destaque. como que percebendo que assim seria, abriu um olho, olhou-a e voltou a fechá-lo. para a esquerda fica o sul, segundo o convencionado ser a esquerda e a direita de um rio. o papel branco marcava uma hora. entraria no centro no limite do rio. soube-lhe bem percorrer toda a marginal, com sol, fugida de todos mas sem pressa... evadida...


6 comentários:

Denis Barbosa Cacique disse...

Nada como dar uma fugidinha de vez em qdo, né!? Agora mesmo, eqto lia seu post, apareceu um assistente do hospital em q trabalho para me passar uma porção de problemas para resolver. Deu vontade de fugir!

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

Uma viagem à liberdade.

Beijinho.

Maria Luar disse...

Também me evadi e cheguei aqui. Gostei. Muito!

Abraço

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maria josé quintela disse...

é uma sensação especial de liberdade, fugir para onde ninguém sabe de nós.

NARNIA disse...

É de facto uma Delicia poder tirar tempo para nós, pegar no carro pelo prazer de conduzir não importa para onde... então se for num dia de semana tem um "sabor" diferente.
(Revejo-me neste post)

tonsdeazul disse...

Gostei de ler estas palavras. Ver as imagens delas a passarem e imaginar como esses dias sabem sempre tão bem. Deixam-nos com os pensamentos sempre mais leves...